Monday, May 6, 2013

Agora, como outrora, encontro na criatividade dos Modernistas do movimento Bauhaus, uma fonte de permanente inspiração.
Repensaram conceitos, alteraram modelos, propuseram formas em todas as áreas de que se ocuparam: da arquitectura ao design, da cenografia (outra forma de arquitectura, de palco) à pintura, à produção dramática, fazendo no especial caso do ballet propostas de movimento e geometria de rara beleza, primeiro com marionettes, e depois inspirando o imaginário exigente e rigoroso dos novos coreógrafos numa depuração antes considerada impossível.
Mas não há impossíveis na criação artística!
Trago aqui o exemplo de Oskar Schlemmer, ao qual gostaria de acrescentar o mais recente exemplo de pura geometria dos corpos em movimento da produção DANCE BAILARINA DANCE, de Clara Andermatt com a Companhia Nacional de Bailado.
Uma obra-prima de imaginação e rigor, só possível devido à grande qualidade de todos os intervenientes, bailarinos e músicos, cenógrafo e compositor - partindo de uma ideia de recuperação ampliada de temas de outrora dos clássicos musicais americanos.
Um exercício de pura reinvenção e alegria, mas de uma modernidade sem par!
Grande lição  a alguns criadores: aos que julgam que nada está feito, ou que tudo está feito, todos errando por igual....
Aguardo que muito em breve se possam encontrar, no youtube, momentos mágicos de Dance Bailarina Dance, para rever e estudar essa harmonia dos corpos que Clara redesenha em movimento!

Thursday, October 25, 2012

1913.
Em plena revolução do imaginário artístico Modernista, Stravinsky com Nijinsky apresentam ao público abismado das salas de Paris esta obra-prima, a Sagração da Primavera. Aplaudida por uns pateada por outros, como seria de esperar.
Só nos anos 70 se redescobre, pela mão de coreógrafos e historiadores da dança, num conjunto de fotos, notas, diários e outros materiais de arquivo o que fora esta explosão de novidade, agora recuperada e recriada. 
Teatralização pujante, intensa, violenta (na quebra da elegância virtuosa das coreografias habituais) de um antigo ritual de fertilidade dos antigos eslavos, em que todos os anos pela Primavera uma jovem era sacrificada ao deus Sol, para que as colheitas abundassem, a vida na terra continuasse, graças a este sacrifício a que a eleita se entregava de livre vontade.

Wednesday, August 22, 2012

Debussy

 Debussy será celebrado ao longo deste ano e do próximo.
Recordo aqui a maravilhosa encenação de Bob Wilson:
um compositor que ama a palavra e a sua magia, encenado por um director que ama a imagem e a sua magia...
Estamos na fronteira da ópera para uma modernidade que Wilson assume e ultrapassa.

Friday, August 3, 2012



Pronto a ser distribuído - para ser lido, claro! um livro que mantendo uma informação correcta procura ao mesmo tempo não esconder o que há de maravilhoso no universo que os astrónomos estudam...as ilustrações, de Pedro Gama, enriquecem a narrativa, sobretudo na elaboração da lenda que ora separa ora une um rei e uma rainha que se procuram e se amam.
O amor é a energia que sustenta o universo criado e as criaturas que vivem nele e o contemplam...

Saturday, July 7, 2012

Marina Abramovic

Marina Abramovic nos anos 70 afirma-se como Performer, num momento em que não se distinguia bem o que era essa nova forma de expressão em que o corpo, exposto no palco ou em qualquer outro espaço, se torna matéria, sujeito e objecto dessa então nova expressão criadora.
Entre nós só um Alberto Pimenta atingiu um alto grau de perfeição no exercício da Performance enquanto "discurso" autónomo. Recordo o seu (agora já transposto em livro) desafio de permanecer encerrado na jaula dos gorilas, impávido, enquanto o público, atónito, parava e comentava...
Há um elemento de profunda ironia e desafio no exercício da Performance : auto ironia, pois se devolve um sentimento de distância em relação ao que se faz, por muito complexa que seja a aposta e extrema a concentração, não isenta de sacrifício e dôr; e desafio, pois o que o artista nos diz é simples, mas só em aparência: estás a ver, mas estarás a apreender por completo?
Mais do que adesão sentimental a Performance, como forma superior de Arte, exige atenção, concentração e percepção, dos mínimos detalhes. O segredo estará sempre nos detalhes.
Este exercício do video que escolhi é apenas um exemplo: Marina, não por acaso amiga íntima de Bob Wilson, foi ao longo dos anos aprimorando o domínio, do corpo e da arte, até atingir formas impossíveis.
Aqui, com um pente e uma escova, se discute o que é o Belo na Arte, "Art must be beautiful" e adiante, com um espreitar súbito, que torturas são ou podem ser infligidas ao corpo do artista. O modo repetitivo é uma forma de incantação, que também faz parte da arte...
Vale a pena estudar o seu percurso. 

Saturday, June 30, 2012

Bob Wilson: um desassossego de imagens

Bob Wilson, criança tímida, gaguejante, que uma professora ajudou sugerindo-lhe que dissesse tudo mais devagar, com tempo, veio a fazer mais tarde, nas suas criações, esse mesmo exercício do atrasar do tempo, do movimento num espaço já redesenhado pela sua formação modernista de arquitecto e pelo seu imaginário surrealista, libertário, de cenógrafo, de coreógrafo, de encenador original e irreverente.
Diz, numa célebre entrevista que podemos ver no dvd ABSOLUTE WILSON que tudo se resume a perguntar What is this ? O que é ? como perguntam as crianças na pequena infância em que tudo é novo à sua roda. 
O que é isto? E ainda: Porquê, acrescentaria eu, como na Alice de Lewis Carroll interroga a lagarta fumadora.
Porque  qualquer resposta à pergunta inicial (iniciática) de "o que é isto" levará a que se coloque a interrogação do "porquê", não menos importante.
No caso de Bob Wilson o porquê da resposta é dado na multiplicidade das suas obras, dos desafios que se lança a si mesmo, numa interrogação-resposta permanente. 
Onde falta a palavra abundam as imagens, as imagens são a substância mesma da narrativa, por muito incompreensível que possa parecer. A Associação livre, aleatória, contém e revela o seu segredo: é por vezes nos cadernos de esquissos que a animação da cena nos surge em ordem íntima; pois como Wilson diz também (na entrevista do dvd que referi) ao caos original é preciso impôr alguma ordem.
Não uma ordem total que venha a abolir a desordem da criação, mas "alguma ordem" que ainda assim permita que uma parte desse caos respire, se manifeste, exista como Obra.
Não admira que um dos Papas do Surrealismo francês,  o poeta Aragon, tenha aclamado Bob Wilson como o verdadeiro surrealista por excelência, o que transpôs toda a linguagem do inconsciente, sem filtro, para as criações do seu mundo exterior, o palco,  que passou a ser o espaço de expressão da consciência liberta e criadora.
Não há palavras que cheguem para descrever a originalidade, abundância, o desassossego, a bebedeira de imagens com que Wilson a seu modo nos embriaga também. Podemos viver e reviver com ele esse excesso, não o poderemos nunca abarcar e descrever por completo.
Há uma diferença essencial entre o falar e o dizer : no seu caso não se trata de acumular, falando por falar, mas de abrir os portões da alma e do dizer como livre expressão de um Verbo fundador.Ora mais contido, ora frenético, ou quase, de tão reprimido inicialmente.
Faz as perguntas, dá as respostas...aqui estão os porque sim :
numa explosão de ideias, numa explosão de imagens, numa explosão de luz!

Friday, June 29, 2012

A Imagem, continuando ....


José Gil, numa obra que gosto de recordar, A Imagem-Nua e as pequenas percepções (1996), abre com “A visão do invisível”  e dedica um capítulo em especial ao “Caos  e Quadrado Negro” (p. 135).

Interroga-se José Gil: “ Porque é que a percepção estética precisa de ao mesmo tempo conhecer e ignorar a forma como objecto? Se a percepção neutraliza o conhecimento, este último, ainda que neutralizado, permanence: o quadro mais abstracto conserva sempre alguma coisa de ‘figurativo’. Até mesmo no Quadrado Branco sobre Fundo Branco de Malevitch o olhar  reconhece alguma coisa, um ‘quadrado’ pintado sobre um ‘fundo’ falso: adivinham-se aqui formas e fantasmas de formas. O quadro mais informal mostra ainda pontos, manchas, contornos, ou materiais rugosos, pregueados, lisos” (p.136).

É assim que a perturbadora criação do Quadrado Branco e a do Quadrado Negro leva o pintor a considerar a ruptura “total e definitiva com o mundo do objecto” (p.138).

Nasce a arte abstracta, como Suprematismo.

Neste movimento, de descoberta e de anulação, o que acontece à imagem como representação?

Permite o anular da imagem dar lugar a novas formas ainda que não o desejem ser? Ou é imperioso que, para existir negação, haja primeiro alguma forma de real que se negue?

E como podemos, pintando, anular a pintura? Ou falando anular a palavra? Esvaziando o sentido? Procurando um sentido no Vazio criado, adivinhado?
Encontro numa poema recente de Manuel Alegre uma interrogação semelhante:

Depois do Branco

Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?

Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?

Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?

( in NADA ESTÁ ESCRITO, 2012 )


Este poema sublinha uma contradição de fundo : 
a do branco com o escuro ( podia chamar-se negro, como na alquimia e teríamos claramente o jogo de opostos da albedo com a nigredo); a da afirmação (do verso escrito) com a pergunta (a dúvida).

Servem estas reflexões para o aprofundamento da definição de Imagem? Imagem como representação ou anulação de um real que na Arte perdeu o sentido?

Haverá sempre um momento em que a energia profunda de uma ideia poderá apropriar-se da mão que pinta, ou que escreve – e então nascerá uma Imagem: mais realista do que outrora ( com os surrealistas, por exemplo) ou mais abstracta, mas representando sempre a pulsão que impele o criador nesse seu gesto, que será sempre vivido como primeiro, primordial e fundador.

Sendo que este branco de Manuel Alegre, como o do Quadrado de Malevitch, pressupõe uma revelação que o pintor, no seu tempo, também teve. Não a da fusão intemporal de Rimbaud no seu poema, mas a da anulação objectiva, temporal,  que o branco sobre o branco permitiu, abrindo a imaginação dos artistas a novos e revolucionários conceitos de produção artística.

O Suprematismo de uns, abolindo o Simbolismo ou o Realismo de outros, está na base da produção dos Modernistas em geral; e aqui se poderia aludir ao exemplo de Fernando Pessoa e a um dos seus mais antigos e interessantes poemas, ALÉM-DEUS, datado de 1913. Lança uma mesma interrogação, com a mesma carga metafísica, ao olhar o rio Tejo:
“O que é ser-rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?”

A descrição do que sente conduz à imagem de “Vácuo”, o vazio que toma o lugar do momento ( o tempo) e do lugar ( o espaço). Desta anulação da consciência nascerá a experiência de Deus.
Veja-se através de que passos:

“ Tudo de repente é ôco-
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo – eu e o mundo em redor-
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus.

E súbito encontro Deus.”

Este Deus, secreto, escondido no escuro e no silêncio da alma, Essência que não se revela mas arrebata e absorve, como um buraco negro, levando à dissolução da consciência de si, na dissolução de todo o mundo exterior – não é um Deus que Malevitch ou outros dos seguidores tenham de verdade procurado. O que procuravam, no exercício da sua Arte, era antes como destruir a norma, que lhes pesava, de um Figurativo realista que se tornara obsoleto. E pelo apagamento da Forma recuperar o Sentido: um sentido, qualquer um, desde que aberto a todas as sensações (o que em Portugal seria o projecto do Sensacionismo). E por oposição, seguindo o mesmo modelo, recusando todas as sensações, pois a recusa de tudo é uma forma de inclusão.