Friday, June 29, 2012

A Imagem, Considerações Várias


Imagem, imaginar, imaginários – uma mesma raiz aberta a múltiplas reflexões.
A Imagem é uma Representação.
Remeto para o célebre quadro de René Magritte, um óleo datado de 1928-1929, um cachimbo, com uma legenda por baixo: ceci n’est pas une pipe.
Estabeleceu-se, com esta legenda, uma primeira reflexão sobre o que é uma imagem: é uma representação (do real) a não confundir com a realidade em si mesma, que seria no caso, um cachimbo que se pudesse fumar! 
Aliás o título do quadro já é uma indicação do entendimento que o pintor tem das imagens face ao mundo real: o título é LA TRAHISON DES IMAGES.
E este é o comentário do artista, quando à sua volta se ergueram vozes de escândalo:
“ O famoso cachimbo. Como fui censurado por causa dele! E no entanto, seria possível carregar de tabaco o meu cachimbo? Não, é só uma representação, não é verdade? Por isso, se eu tivesse escrito no meu quadro’isto é um cachimbo’, estaria a mentir! “
Michel Foucault discute no seu estudo de 1973, Ceci N’est Pas Une Pipe, o aparente paradoxo com que o quadro nos confronta.
Falando de imagem /representação podemos discutir se a representação o é de um objecto real (como neste quadro) ou de um objecto imaginário: com este conceito de representação do imaginário, trazendo-o até nós, tornando-o por sua vez real deste modo, alcançamos, ou propomos, um novo patamar de discussão. 
Neste patamar teriam lugar de destaque os Surrealistas e as suas criações, vivendo do imprevisível, do surpreendente, do que poderíamos chamar a lógica do inconsciente.
E neste caso já o real em si mesmo pouco nos preocuparia, dado que um outro real – o imaginário – se tinha tornado visível e apetecível.

Este é um patamar onde para além da questão da imagem se coloca uma outra: a do dizer, e em que linguagem: pictórica, literária, musical, etc. (deixando de fora um imaginário não menos interessante, o científico, com as novas capacidades de elaboração tecnológica hoje tornadas possíveis).
O sufixo im, presente nas várias formas que acima indiquei, remete desde logo “para dentro”, ou seja para uma íntima visão (representação) emanada / construída a partir das esferas da nossa psique (consciente, sub- e in- consciente).
Sendo assim, a Imagem, neste contexto, mais restrito ou mais amplo, terá sempre uma forte marca de subjectividade. 
Nada que incomode um criador…ele procura, não o real imediato, acessível, mas a parte de mistério que o transcende. Algo como um para-lá do real  de que o criador resolveu ocupar-se.
Podemos perguntar: mas há mistério no real ? Não é o real uma absoluta objectividade em si mesma? 
Pelos vistos não, para um criador que o interroga e pelo caminho se interroga também a si mesmo.

A imagem, tomada no sentido da Psicologia das Profundidades (Jung) é uma forma que se constrói nos sonhos, nas imaginações e  fantasias a partir de um núcleo de relacionamento entre o Sujeito consciente e a esfera profunda do Inconsciente. A alma (die Seele, Jung) projecta nas imagens a psicodinâmica do inconsciente na consciência. A alma cria imagens e símbolos e é ela mesma Imagem (itálico meu).
Imagens e símbolos, diz  ainda Jung, são de origem mais primitiva e mais variada do que a linguagem, e por isso um importante fundamento da comunicação humana. 
Podemos avançar um pouco mais pelos conceitos : imagem, representação, projecção de conteúdos do inconsciente.
Nos casos de que nos fala Jung, os sonhos, as fantasias, o conceito de Alma- sendo que a Alma é Imagem, é representação de uma Essência que de outro modo não seria inteligível – fomos sendo guiados para a tal visão íntima, subjectiva, da representação.

Mas fomos avançando um pouco mais. 
Da Imagem /Representação à Imagem/Comunicação:
1. em primeiro lugar do eu consigo mesmo (imagem /representação, do inconsciente à consciência)
2. e em segundo lugar do eu com o outro, com o mundo (por via da representação / comunicação)

E fica uma pergunta: não poderá haver um centro próprio, específico, demarcado no cérebro de forma mais objectiva que seja o criador da imagem, e da representação?
Ao “mapear” um cérebro o que descobre, ou o que poderá vir a descobrir um dia, o neurobiólogo do século XXI?
 Guardo a ideia de que a imagem é talvez a sinapse de dois neurónios felizes que se entendem, como na definição de Eternidade que Rimbaud nos oferece no seu poema  L’ÉTERNITÉ, de 1872:
“Elle est retrouvée. / Quoi? – L’Éternité. / C’est la mer allée avec le soleil”
ou seja, o mar e o sol, a água e o fogo, numa conjunção ideal de completude: eis a sua imagem /representação da Eternidade:
Rimbaud
L’ÉTERNITÉ

Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Âme sentinelle,
Murmurons l’aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s’exhale
Sans qu’on dise: enfin.

Là pas d’espérance,
Nul orietur.
Science avec patience, 
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi?- LÉternité.
C’est la mer allée 
Avec le soleil.

Água e Fogo nesta junção elementar de opostos que definem, com o seu fulgôr, o Todo da Eternidade.
Encontramos no imaginário alquímico um semelhante entendimento da Eternidade como reunião, conjunção de opostos: 
lua / sol ; 
água / fogo; 
dia / noite;
mercúrio / enxofre
macho / fêmea
etc.


Sendo que a Pedra Filosofal, de muitos nomes, como dizem os alquimistas, os reúne em si numa imagem de perfeição e completude. 
A imagem ideal é a do Andrógino, trazida até à Modernidade a partir do Banquete de Platão. Ser esférico, completo, integrando os dois géneros, o masculino e o feminino, mas posteriormente castigado e dividido pelos deuses, permanece como arquétipo de um estado ideal que a Pedra dos alquimistas recupera.
Mas continuemos com a nossa reflexão:
O que será mais propício à nossa elaboração criadora? Um arquétipo, como o referido acima, ou um puro vazio, um espaço branco onde todas as imagens se podem projectar?
Recordemos a célebre série de Kazimir Malevich, nas telas a óleo de 1918: Branco sobre Branco.
A contemplação destes quadros, onde apesar de tudo o vazio não é pleno, pois se podem distinguir com clareza as marcas do pincel, a tensão e a intensidade dos tons de branco aplicados, abriu mais discussão na História e na Crítica da Arte. Os defensores destas formas ditas de suprema abstracção, designados como “Suprematistas”, o que propõem, seja no Branco seja no Negro, como absoluto contraponto ao Branco? Um novo entendimento da criação ou um novo entendimento da nossa relação com a obra criada e o seu criador?
É o criador um alter-ego nosso que faz a mediação entre nós e o mundo, visto pelos seus olhos? E que papel desempenha a imagem de suposto absoluto em relação a nós, ou ao seu criador?
É um suporte livre do nosso imaginário?




Tuesday, June 26, 2012

Berg:do corpo que fala ao silêncio que mata II

Do corpo que fala ao silêncio que mata II

No post anterior, dedicado à ópera Lulu, sobre libretto fiel aos dois dramas de Wedekind que lhe dão o suporte literário e temático, Berg explora de modo inspirado esta ideia a que me refiro de um corpo que fala, melhor, que grita, levado como é por pulsões incontroláveis de um ego sexualizado até ao limite da própria pulsão da morte, que provoca e a que na verdade se entrega.
No caso da ópera Wozzeck, inspirada por outro expressionista, Georg Buechner, iremos encontrar uma outra figura de mulher infiel, mas o personagem que concentra todo o drama, toda a tragédia em si mesmo é o pobre soldado Wozzeck, enganado, é certo, mas sobretudo constantemente humilhado pelos seus superiores, entre eles o médico que faz dele um objecto das suas experimentações cruéis sobre um pobre de espírito.
O sucesso desta obra deve-se também, sem dúvida, ao que nela se antevê de um futuro que estava ao virar da página, com a ascenção do nazismo numa Alemanha emudecida, como o pobre soldado.
Mas considremos o tema: é na minha opinião o de uma voz que se cala, se vai calando, incapaz de articular num protesto coerente o tumulto que lhe vai na alma, até uma explosão final, e fatalmente destrutiva: Wozzeck, o humilhado, acaba por matar a mulher que foi mediadora de tanta humilhação.

Estas óperas, e já as próprias peças de teatro permitem, na questão do terceiro intérprete que seria o encenador, discutir algo de interessante: actualizar ou não para um tempo mais próximo o tratamento das figuras e situações principais.


Alban Berg:do corpo que fala ao silêncio que mata


Mais do que uma vez tenho referido que no trabalho de palco de uma ópera o encenador é o terceiro intérprete.
Neste exemplo que escolhi, de Alban Berg, é contudo nele que devemos fixar a atenção. Como segundo intérprete de um texto e na qualidade de compositor como seu renovado criador.
O texto, suporte do libretto, é da autoria de Frank Wedekind (1864-1918) o grande iniciador, ou um dos grandes, do Expressionismo Alemão, primeiro com a sua peça Despertar da Primavera, que se transformou no grito de libertação da sexualidade juvenil reprimida, quebrando os tabús morais da época numa Alemanha cujos códigos eram ainda, ao tempo, fortemente condicionados pela norma do Protestantismo luterano e não apenas pelo Catolicismo, como frequentemente se julga.
As peças seguintes, O Espírito da Terra e A Caixa de Pandora transitam já para um espaço mais alargado, adulto e em que se desnudam os vícios e a corrupção moral de uma sociedade decadente.
Lulu, mulher fatal, Eva negra, é descrita ao mesmo tempo como falsa ingénua e prostituta assasina que morrerá por sua vez às mãos de um assassino: Jack o Estripador figura que se tinha celebrizado pelas piores razões. Interessante é o facto de Wedekind, no seu desejo de tornar real para além do real o suporte do seu drama, se ter inspirado nas notícias de um quotidiano que foi bem conhecido. Mas perdura no imaginário da sua criação uma Lulu eterna, ambígua, que se torna personagem de eleição de criadores futuros, como é o caso de Berg.

Thursday, June 14, 2012

Henry Purcell, The Fairy Queen

O Festival de Glyndebourne tem sido em Inglaterra o que mais novidade apresenta no tratamento de matérias clássicas, como a ópera, entre outras.
As encenações são originais e inspiradoras de um gosto actualizado mas nem por isso menos fiel à substância do texto e da sua lição.
Cada produção é exemplo do que se pode entender por Cultura Visual, e neste caso que escolho, de uma ópera de Purcell  (1659-1695) composta a partir de uma célebre obra de Shakespeare, Sonho de uma Noite de Verão (mas que devia ser traduzida como Sonho de uma Noite de São João, para ser mais fiel) fica bem patente como o palco é suporte visual da "lição" que o texto comporta.
Acresce, para o prazer de quem vê, o prazer de quem ouve: o elemento musical não é despiciendo, acrescenta e eleva a dimensão da Obra a novos patamares de entendimento e emoção.
Para a discussão da peça de Shakespeare, uma obra-prima carregada de sentidos subliminares, lidando com símbolos profundos da nossa psique, sugiro a leitura do meu livro TEATRO E SOCIEDADE (ed. Lusófona).
Para o prazer da ópera  sugiro o dvd ed. CHOC de Classica, do Festival referido.
Com atenção especial à encenação.
Deste ponto de vista, e porque o gosto varia conforme a época e a moda, será ainda interessante ver outras produções, anteriores e recuperando uma certa fidelidade ao que seria o gosto do Barroco.

Wednesday, April 18, 2012

Wagner, o fecho do ciclo da maldição do anel.
Lançado às águas do Reno, de onde o ouro tinha sido roubado, completa-se, com o Crepúsculo dos Deuses, a morte de Siegfried (o herói que é redentor e sacrificado), este ciclo de criatividade magnífica em que os mitos dos Edda e dos Germânicos são recuperados à luz de um novo olhar sobre a  condição divina ( humana ): humana, demasiado humana, como Nietszche teria dito!
E aqui temos um exemplo da universalidade dos mitos, arquétipos estruturantes do nosso imaginário, para usar termos junguianos, nesta obra de uma escritora brasileira de sucesso, cujo título é O Crepúsculo dos deuses, oferecendo aos  leitores de hoje a sua interpretação da Aurora e do Declínio dos deuses que secretamente ainda comandam os destinos e as vidas...

Monday, April 16, 2012

A LÓGICA DO IMPREVISTO

Neste pequeno filme do Museu Magritte temos uma espécie de resumo do seu imaginário: libertos da atracção da gravidade ( em sentido formal e em sentido metafórico) os seus objectos, que não são o que dizem ser, o cachimbo não é um cachimbo, o chapéu não é um chapéu e ele mesmo não é ele mesmo (é um duplo de representação) - os seus objectos tomam balanço e voam, dançam no espaço, flutuam...como se nos quisessem dar a ver uma outra realidade, tal como no seu auto-retrato se dá a ver não o homem real mas um seu alter-ego, um entre os muitos possíveis.
A questão que a sua pintura,  e a "leitura" deste filme nos colocam é afinal bem simples: a do mundo do possível, num imaginário liberto, não apenas da "gravidade" mas da realidade em si mesma.
É por via da "representação" que o pintor discute o seu conceito de arte e de criação artística.
Nada é real, mas tudo é possível, no mundo da representação.

Sunday, April 15, 2012

A IMAGEM


Imagem, imaginar, imaginários – uma mesma raiz aberta a múltiplas reflexões.
A Imagem é uma Representação.
Remeto para o célebre quadro de René Magritte, um óleo datado de 1928-1929, um cachimbo, com uma legenda por baixo: ceci n’est pas une pipe.
Estabeleceu-se, com esta legenda, uma primeira reflexão sobre o que é uma imagem: é uma representação (do real) a não confundir com a realidade em si mesma, que seria no caso, um cachimbo que se pudesse fumar! 
Aliás o título do quadro já é uma indicação do entendimento que o pintor tem das imagens face ao mundo real: o título é LA TRAHISON DES IMAGES.
E este é o comentário do artista, quando à sua volta se ergueram vozes de escândalo:
“ O famoso cachimbo. Como fui censurado por causa dele! E no entanto, seria possível carregar de tabaco o meu cachimbo? Não, é só uma representação, não é verdade? Por isso, se eu tivesse escrito no meu quadro
 ’isto é um cachimbo’, estaria a mentir! “
Michel Foucault discute no seu estudo de 1973, Ceci N’est Pas Une Pipe, o aparente paradoxo com que o quadro nos confronta.

Falando de imagem /representação podemos discutir se a representação o é de um objecto real (como neste quadro) ou de um objecto imaginário: com este conceito de representação do imaginário, trazendo-o até nós, tornando-o por sua vez real deste modo, alcançamos, ou propomos, um novo patamar de discussão. 
Neste patamar teriam lugar de destaque os Surrealistas e as suas criações, vivendo do imprevisível, do surpreendente, do que poderíamos chamar a lógica do inconsciente.
E neste caso já o real em si mesmo pouco nos preocuparia, dado que um outro real – o imaginário – se tinha tornado visível e apetecível.
Este é um patamar onde para além da questão da imagem se coloca uma outra: a do dizer, e em que linguagem: pictórica, literária, musical, etc. (deixando de fora um imaginário não menos interessante, o científico, com as novas capacidades de elaboração tecnológica hoje tornadas possíveis).
Este sufixo im, presente nas várias formas que acima indiquei, remete desde logo “para dentro”, ou seja para uma íntima visão (representação) emanada / construída a partir das esferas da nossa psique (consciente, sub- e in- consciente).
Sendo assim, a Imagem, neste contexto, mais restrito ou mais amplo, terá sempre uma forte marca de subjectividade. 
Nada que incomode um criador…ele procura, não o real imediato, acessível, mas a parte de mistério que o transcende. Algo como um para-lá do real  de que o criador resolveu ocupar-se.
Podemos perguntar: mas há mistério no real ? Não é o real uma absoluta objectividade em si mesma? 
Pelos vistos não, para um criador que o interroga e pelo caminho se interroga também a si mesmo.
A imagem, tomada no sentido da Psicologia das Profundidades (Jung) é uma forma que se constrói nos sonhos, nas imaginações e  fantasias a partir de um núcleo de relacionamento entre o Sujeito consciente e a esfera profunda do Inconsciente. A alma (die Seele, Jung) projecta nas imagens a psicodinâmica do inconsciente na consciência. A alma cria imagens e símbolos e é ela mesma Imagem (itálico meu).
Imagens e símbolos, diz  ainda Jung, são de origem mais primitiva e mais variada do que a linguagem, e por isso um importante fundamento da comunicação humana. 
Podemos avançar um pouco mais pelos conceitos : imagem, representação, projecção de conteúdos do inconsciente.
Nos casos de que nos fala Jung, os sonhos, as fantasias, o conceito de Alma- sendo que a Alma é Imagem, é representação de uma Essência que de outro modo não seria inteligível – fomos sendo guiados para a tal visão íntima, subjectiva, da representação.
Mas fomos avançando um pouco mais. 
Da Imagem /Representação à Imagem/Comunicação:
1. em primeiro lugar do eu consigo mesmo (imagem /representação, do inconsciente à consciência)
2. e em segundo lugar do eu com o outro, com o mundo (por via da representação / comunicação)
E fica uma pergunta: não poderá haver um centro próprio, específico, demarcado no cérebro de forma mais objectiva que seja o criador da imagem, e da representação?
Ao “mapear” um cérebro o que descobre, ou o que poderá vir a descobrir um dia, o neurobiólogo do século XXI?
 Guardo a ideia de que a imagem é talvez a sinapse de dois neurónios felizes que se entendem, como na definição de Eternidade que Rimbaud nos oferece no seu poema  L’ÉTERNITÉ, de 1872:
“Elle est retrouvée. / Quoi? – L’Éternité. / C’est la mer allée avec le soleil”
ou seja, o mar e o sol, a água e o fogo, numa conjunção ideal de completude: eis a sua imagem /representação da Eternidade:
Rimbaud
L’ÉTERNITÉ

Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Âme sentinelle,
Murmurons l’aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s’exhale
Sans qu’on dise: enfin.

Là pas d’espérance,
Nul orietur.
Science avec patience, 
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi?- LÉternité.
C’est la mer allée 
Avec le soleil.